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Terceiro domingo do Advento

Mateus 2,1-12

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia nos dias do rei Herodes, eis que uns magos chegaram do Oriente a Jerusalém, perguntando: onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Ao ouvir isso, o rei Herodes inquietou-se e com ele toda Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os escribas do povo, indagava deles onde havia de nascer o Cristo. Disseram-lhe eles: ‘Em Belém da Judéia; pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de forma alguma és o menor dos distritos de Judá porque de ti sairá um chefe que apascentará meu povo Israel’. Herodes chamou, então, secretamente os magos e informou-se com eles cuidadosamente sobre o dia e a hora em que aparecera a estrela. E os colocando no caminho de Belém, disse: ‘Ide e investigai sobre o menino e quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para eu também ir prestar-lhe homenagem’. E tendo ouvido o rei, partiram. Eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, ia-lhes à frente até parar no lugar onde estava o menino. Vendo a estrela encheram-se de grande alegria. E entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, caindo por terra, o adoraram. Abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes, ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho”.

Este texto apresenta dois reis: Herodes e Jesus.

Herodes o Grande era o rei da Judeia (37-4 aC). Ele era idumeu. E estava no cargo nomeado e protegido pelo senado de Roma. Sendo estrangeiro, ele é ilegítimo (Dt 17,15).

Jesus era descendente de Davi e nasceu na cidade de Davi. Portanto, ele é um sucessor legítimo (Am 9,11; Ez 37,24; Jr 30,9; 33,15). Sendo um rei legítimo, Jesus torna-se um rival perigoso para Herodes.

Mais tarde, o título “rei dos judeus” constou na cruz (Mt 27,11.29.37), carregado também de conotação política (Lc 23,1-2; At 17,1-9).

Os magos vieram do Oriente para Jerusalém. Na época, não havia separação entre astronomia e astrologia (Dn 2,2.10). Esses sábios também deviam conhecer o oráculo de Balaão: “Eu o vejo – mas não agora, eu o contemplo – mas não de perto: um astro procedente de Jacó se torna chefe, um cetro se levanta, procedente de Israel” (Nm 24,17).

Balaão é uma figura controversa. Ele se apresenta como “homem de olhar penetrante” e que “ouve as palavras de Deus e conhece os pensamentos do Altíssimo”. Em êxtase e com os olhos abertos ele pronunciou o oráculo, que se tornou uma profecia para o nascimento do Messias. “Aqui o oráculo se refere à vitória de Davi contra Moab (2 Sm 8,2), comenta a Bíblia Pão Nosso. É uma referência à monarquia de Davi e na perspectiva futura ao Messias. “O cetro alude a Davi e sua dinastia” (Sl 45,7), comenta a Bíblia do Peregrino.

Os visitantes trazem os tributos dos povos pagãos (Is 60,6; Zc 8,20-22; Sl 72,10-15; 102,15). A homenagem dos pagãos já fora anunciada em Gn 49,10.

De Belém sairá o descendente de Davi, que será pastor do povo (2 Sm 5,2).

Os magos perguntam pelo rei dos judeus, pois viram “o seu astro”. No ambiente religioso da época do AT e do NT, quando ocorria uma alteração no céu, isso também significava uma mudança na terra. Em Ap 12, nós lemos que “apareceu um sinal grandioso no céu” e também que “houve uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão”. Este foi expulso e, no cap. 13, atuou junto com a Besta. Isso significa que os acontecimentos são decididos no céu, para então se efetivarem na Terra. No Oriente, as estrelas são um sinal que se refere aos reis. Os sinais no céu indicam que surge um novo rei, uma nova dinastia e que terá início uma nova ordem mundial.

O fato de os magos procurarem um novo rei significa que houve alguma alteração no céu.

No Apocalipse, Jesus se apresenta como a “brilhante Estrela da manhã” (22,16).

Dá para imaginar que Herodes e Jerusalém se alarmaram.

Também fica evidente o contraste: enquanto os pagãos procuram pelo novo rei dos judeus, Jerusalém já assume características de oposição. É a cidade que mata os profetas. Os pagãos veem um sinal no céu. Os sacerdotes e os escribas interpretam as profecias.

Guiados pela estrela, os magos se dirigem até à casa onde encontram o menino Jesus. Quando estão próximos da casa, a estrela aparece novamente e os magos se enchem de alegria.

Eles veem o menino Jesus com sua mãe Maria. No Sl 45,9, a mãe do rei recebe destaque.

Os presentes dos magos são ouro, incenso e mirra.

Eles são avisados em sonho para não retornarem a Herodes. No evangelho de Mateus, a comunicação de Deus com José acontece mediante sonhos. Em sonhos, Deus diz para José receber Maria como esposa, para levar o menino ao Egito, para retornar à Judeia e, depois, para morar na Galileia.

Neste texto de Mateus, a estrela aparece tanto de noite quanto de dia. Seu movimento não era contínuo; sua função era acompanhar os magos. A estrela não se limitou a ficar no alto; ela também desceu para indicar o endereço da casa em que se encontrava o menino Jesus.

Percebemos que se trata de uma estrela diferente.

O surgimento de uma estrela apenas indica um acontecimento; ela não guia, declara o astrônomo David A. Weintraub. O evangelista Mateus quer nos transmitir que os magos observaram um sinal no céu, indicando o nascimento de um rei e, vindo de longe, eles foram conduzidos por orientação divina até encontrarem o menino Jesus. E também foram orientados por Deus para não entregarem a localização a Herodes. Mateus não se preocupou em delimitar astronomia e orientação divina. Afinal, Deus age no universo inteiro.

Nestes dois milênios, a estrela de Belém foi alvo de várias interpretações.

O teólogo Orígenes propôs que a estrela de Belém tivesse sido um cometa.

Em 1301, o cometa Halley passou próximo à Terra. Algumas pessoas propuseram que ele fosse a estrela de Belém. A luz de um cometa pode permanecer visível durante semanas. Quando Giotto (1267-1337) pintou o quadro ‘Adoração dos magos’, ele retratou o cometa Halley, que ele havia visto. No entanto, a passagem do cometa Halley havia ocorrido no ano 12 aC.

João Crisóstomo e Tomás de Aquino propuseram que a estrela de Belém fosse uma manifestação espiritual, assim como a pomba representou a presença do Espírito Santo.

Astrônomos chineses registraram o surgimento de uma “estrela nova” na constelação de Capricórnio no ano 5 aC. Uma estrela nova surge quando uma “anã branca” explode. Seu brilho pode se tornar até 100 mil vezes mais brilhante.

O astrônomo alemão Johannes Kepler calculou que ocorreu uma conjunção planetária entre Júpiter e Saturno no ano 6 aC. O fenômeno durou 8 meses e pôde ser visto principalmente na região do Mediterrâneo. Júpiter e Saturno são os dois maiores planetas do Sistema Solar. Quando eles ficam alinhados, eles parecem um só corpo celeste, formando uma luminosidade muita intensa.

A astrologia chinesa considera Saturno relacionado com a Síria e a Palestina.

Também acontece o fenômeno da ocultação de um planeta por parte da Lua. A ocultação de Júpiter pela Lua (em 30 de março e 17 de abril do ano 6 aC), foi considerado um sinal do nascimento de um grande rei.

Constatamos que a astronomia observou muitos fenômenos no ano 6 aC.

E foi no ano 6 aC que nasceu Jesus, quando foi realizado o primeiro recenseamento de Quirino, governador da Síria (Lc 2,2). Esse recenseamento aconteceu entre os anos 8 e 6 aC.

Vejamos como foi elaborado o cálculo para o calendário. Na época de Jesus, os acontecimentos do Império Romano tinham como referência o início da realeza, em 753 aC. A ocorrência dos fatos era relacionada antes ou depois dessa data, que era denominada de capitolina ou varrônica. No ano 525, o Papa João I incumbiu o monge Dionysius Exiguus a elaborar um calendário cristão. O ano 1 do calendário cristão deveria corresponder ao nascimento de Jesus. Mas, o monge Dionísio entendeu como literal a idade aproximada de 30 anos de Jesus (Lc 3,23). Lucas queria declarar que Jesus já tinha a idade mínima para exercer sua missão e ser aceito entre os judeus.

Os historiadores constatam que Herodes reinou de 37 a 4 aC. É certo que Jesus nasceu antes da morte de Herodes. O relato de Mt 2,13-23 deixa evidente que Herodes estava preocupado com um menino que já havia nascido. E se ele mandou matar “todos os meninos de dois anos para baixo” (Mt 2,16), ele estava querendo eliminar o rei que nascera no ano 6 aC.

Herodes morreu no ano 4 aC, quando Jesus tinha dois anos de idade. Antes de morrer, Herodes mandou matar todos os meninos da região. Desse modo, ele encerrou uma biografia cruel e perversa. Como o poder desumaniza uma pessoa. E como esse tipo de governante sempre de novo surge na história da humanidade.

Concluindo, podemos considerar o alinhamento de Júpiter e Saturno, ocorrido no ano 6 aC, um dado científico pesquisado pela astronomia. Esse mesmo alinhamento também foi observado em 1980 e no ano 2000. Agora, em 2020, esses dois planetas estarão dez vezes mais próximos que em 1980. “A última vez em que estiveram tão próximos e deu para ver da Terra foi em 1226, explicou Rodolfo Langhi, astrônomo e professor da Universidade Estadual Paulista – em entrevista à CNN Brasil.

Portanto, durante esta semana, Júpiter e Saturno formam uma conjunção planetária. O ápice do fenômeno será no dia 21 de dezembro. O alinhamento desses dois maiores planetas do Sistema Solar poderá ser visto pouco depois do por do sol, olhando para oeste.

Maria Luiza Rückert
Paulo Rückert

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